8 questões polémicas de pediatria: o pediatra responde

Postado por Digito 19/02/2019 0 Comentários Saúde,

8 questões polémicas de pediatria: o pediatra responde

 

As crianças por muitos anos foram tratadas como se fossem adultos mais pequenos, sem haver a noção da diferença abismal das particularidades que as pessoas têm ao longo das diferentes idades, principalmente, aqui, considerando as idades da infância e da adolescência. Todavia, o reconhecimento da criança enquanto ser biopsicossocial, assim como os seus direitos enquanto cidadão foram-se delineando ao longo da história, paralelos à assistência e cuidados de saúde a este segmento populacional. O Plano Nacional de Saúde Infantil em Portugal passou por transformações e permanece, ainda, em constante construção. Hoje em dia, há uma grande preocupação da sociedade, e principalmente dos pais, em proteger, potenciar e perceber o desenvolvimento das crianças. Há temas que suscitam dúvidas e polémicas, muitas das vezes não pela validação dos estudos em si, mas pela adequação das circunstâncias de cada situação em particular.

 

O Médico Pediatra José Luís Fonseca responde a algumas questões do âmbito da pediatria que, por vezes, geram alguma polémica e muitas dúvidas. O Dr. José Luís Fonseca é pediatra há 35 anos no distrito de Braga e, ao longo da sua carreira profissional, passou por algumas vicissitudes no que respeita a mudanças de diretrizes e paradigmas no cuidado à criança.

 

1. [VACINAÇÃO] A vacinação, tema que não deveria ser polémico tem gerado nos últimos tempos alguma discórdia. A vacinação previne o aparecimento de doenças e torna possível a sua erradicação. Todavia há pais que optam por não vacinar os filhos. Porque devemos vacinar os nossos filhos? Devemos recear os efeitos secundários da vacinação ou a razão benefício/prejuízo é tão grande que nem se deveria colocar isso em questão? 

Felizmente, Portugal é um dos países com melhor cobertura vacinal do mundo nas idades pediátricas. Isso está seguramente relacionado com a diminuição da mortalidade e da morbilidade (doença) infantil, que se tem verificado. As redes sociais têm como particularidade dar visibilidade a coisas que são, largamente, minoritárias e que aparecem ampliadas, tornando pequenas situações em problemas nacionais. É o caso dos grupos anti vacinas. Na realidade, felizmente em Portugal, estes grupos não passam de pequenas minorias e um dia serão julgados pelo mal que estão a provocar nos seus filhos. As vacinas, quando chegam ao nosso país, já estão largamente testadas, na sua eficácia e nos pequenos efeitos secundários que possam provocar. Por isso é que as pessoas inteligentes não embarcam na “política de aniquilação do mundo através das vacinas”, ou que “todo o mundo está comprado e as multinacionais fazem crer que as vacinas são precisas, mas nunca foram”… São estas as ideias fundamentais que esses grupos querem difundir e que têm, em alguns países, consequências dramáticas… A grande maioria das vacinas, que estão indicadas fazer em Portugal, têm o aval das principais Sociedades Científicas e têm conseguido controlar doenças graves e epidémicas. Os pequenos contras são o custo da vacina e uma pequena “pica”.

 

 

2. [COLO] Muitas pessoas defendem que nos primeiros meses de vida não se devem habituar as crianças ao colo sempre que choram. Referem que os bebés se devem acalmar sozinhos no berço. Qual o fundamento para esta atitude? Colo a mais é prejudicial?

A pergunta já tem implícita uma resposta, ou seja, ao classificar o colo como “a mais” já se está a querer dizer que aquilo a que se refere é um exagero… Mas um colinho é uma atitude boa, para pais e filhos! Há é alturas em que a autonomia, que devemos implementar às crianças, fica prejudicada se for um colo dado em tempos inapropriados, os quais são diferentes, dependendo da idade da “criança”.

 

 

3. [AMAMENTAÇÃO] Para as mães que por vezes pensam que “amamentar é mais difícil do que pensava” como lhe responderia às seguintes questões. Porque devo amamentar? Como é que sei que o meu leite está a ser suficiente para alimentar o meu bebé? Já ouvi falar em leite fraco. Como é que eu sei se o meu leite é fraco?

O leite materno é uma dádiva da humanidade para a humanidade! Tem no processo da amamentação, e na sua constituição, fatores que deixam boas sequelas na vida desse ser humano pequenino e pouco defendido. O efeito benéfico inicia-se no recém-nascido e prolonga-se ao longo de toda a vida. Para quem o possa fazer, amamentar é dar saúde e felicidade, a si e aos seus, para toda a vida. Há alternativas, mas estão a anos-luz de distância, nos seus efeitos positivos! Por isso, devemos estar muito bem informados quando queremos tomar a decisão de amamentar ou não. Devemos informar-nos em sítios de confiança e não nos meios de pequenos grupos, que apresentam pseudoargumentos, mas que podem apanhar os incautos. Como é que sei que o meu leite está a ser suficiente para alimentar o meu bebé? As crianças nessas idades requerem um apoio de saúde a intervalos tão pequenos quanto os necessários para garantir que mãe e filho estão a fazer o suficiente para as coisas correrem bem. Na prática, sabe-se que o leite só será insuficiente se acontecerem, nesses períodos, erros de técnica ou incapacidades físicas. De contrário, no início será difícil, mas depois tudo correrá sobre rodas e, nesta história também, todos acabam felizes. Já ouvi falar em leite fraco. Como é que eu sei se o meu leite é fraco? É um mito. Não existem leites fracos da mãe. Por muito fracos que sejam, são virtualmente os melhores do mundo para a criança.

 

 

4.[HIPER-PROTEÇÃO] “A hiper-proteção é, também, um ato de negligência”. Como comenta esta expressão?

A sociedade está sempre em evolução... e em modificações que tendem a ser desequilibradas se não tomarmos atenção aos seus exageros! Maioritariamente, passou-se de uma fase de autoritarismo, em que os pais eram ditadores e as crianças “não precisavam de explicações”, para outra fase em que “a criança é que sabe, se não pode ficar traumatizada” …Aos pais compete educar, para a felicidade e a autonomia. Os pais devem aperceber-se qual a fase em que os seus filhos estão e o que já podem e devem fazer sozinhos. Isso contribui para a sua capacidade de viver em sociedade, sem estarem dependentes de outros. Daí que os pais não podem fugir a esta responsabilidade de deixar que os seus filhos sejam autónomos, sob pena de poderem, de facto, serem negligentes por excesso de proteção, contribuindo para a disautonomia dos seus filhos.

 

 

5. [HIPERATIVIDADE] Existe uma "pressão social para que os alunos se portem bem". Para o psiquiatra Daniel Sampaio, claramente a mudança não está no comportamento dos menores: "Há a pressão dos pais e dos professores para que os alunos fiquem menos turbulentos. Os professores pedem aos pais para levarem os meninos ao psicólogo e ao psiquiatra porque estão muito turbulentos e podem ser hiperativos". Há crianças excessivamente medicadas e outras que não estão medicadas e necessitariam. Que repercussões tem isto na saúde da criança?

Acho que no conteúdo da pergunta está o cerne da questão, que tanto tem angustiado a sociedade, principalmente quem tem filhos que precisam ser medicados e quem tem filhos que estão medicados e não precisam. Na minha opinião, todos os medicamentos são facas de dois gumes e com dois sentidos: um que aponta para o tratamento e outro que aponta para os efeitos secundários. Quanto mais pequenas são as crianças, mais devemos pensar nas consequências que uma medicação possa ter na vida e na sua saúde . No caso em causa, quando uma criança precisa de uma medicação, para ser capaz de produzir aquilo que o seu físico e a sua mente lhe permitem, e se lhe omitimos essa medicação, podemos estar a prejudicar a vida da criança para sempre. É o exemplo dos óculos: se a criança vê mal e não lhe fornecermos uns óculos, para que ela possa desempenhar as suas funções visuais (sem grandes consequências negativas no seu uso), estamos a privá-la de uma vida mais saudável. Por isso, neste, como em muitas outras situações, o mais importante será termos um Médico em quem confiamos o nosso filho e oferecermos aquilo que o nosso filho tem direito, seja para dar, seja para não dar uma medicação.

 

 

6. [DESINFEÇÃO] No último século, a maioria dos seres humanos reconheceu a importância de hábitos de higiene. Hoje em dia podemos afirmar que o mundo nunca foi um lugar tão limpo. Mas estaremos a chegar a um extremo prejudicial no que respeita ao excesso de desinfeção?

Parece-me um exagero estarmos a classificar o mundo como um lugar limpo, quando ainda estamos tão longe de isso poder acontecer e podermos beneficiar da discussão se vale a pena estarmos tão higienicamente tratados. É uma utopia. Podemos discutir utopias, mas temos de saber que as teorias de que a higiene, a limpeza, os cuidados de transmissão de determinadas doenças infeciosas que colocam em causa o nosso bem-estar e, mesmo, a nossa sobrevivência, estão longe da realidade da grande maioria do mundo. Assim, enquanto pudermos, devemos ensinar a ser o mais higiénico e assético possível, principalmente aos seres humanos mais frágeis, e, mesmo assim, não estamos a evitar a transmissão de milhões de micróbios, alguns dos quais bem prejudiciais. Contudo, não se pode confundir a proteção contra agentes infeciosos, com hábitos saudáveis de contacto com a terra e com animais, nas idades apropriadas e com os cuidados apropriados.

Não vão longe os anos em que os bebés se deitavam nas pocilgas e na lama de dejetos de animais, nos quais a mortalidade infantil era 100 vezes superior à que hoje em dia, se verifica no nosso país. A memória é fundamental para não cair nos mesmos erros de um passado recente e que tanto trabalho está, ainda, a dar para combater.

 

 

7. [MIPMED] Como sabe a nossa iniciativa de fazer entrevistas no âmbito da pediatria, decorre do nosso foco como empresa de produtos médicos. Como consideramos que a pediatria é uma área de extrema importância, queremos dar-lhe a devida atenção e ter os melhores produtos à disposição dos nossos clientes. Qual a sua opinião no que respeita à qualidade e perigos no momento da escolha de produtos de pediatria que existem no mercado? Resulta das respostas anteriores que temos de continuar a ser muito criteriosos na escolha dos produtos que, hoje, estão muito mais acessíveis para aquisição no mercado global e, cuja publicidade sem filtro, nos entra pelos écrans da televisão, do computador, de telefones espertos…… Por isso, é de valorizar o esforço no rigor da qualidade comprovada, que a MIPMED tem, e na preocupação de atualização científica, como exemplifica esta simples entrevista, para que possam continuar a pugnar por bons preços e muita qualidade nos produtos, no que me diz respeito, para a infância e adolescência, para a saúde materna e infantil...

 

 

8. [FOLLOW-UP] O Dr. José Luís Fonseca tem um consultório privado, em Braga. Um modus operandus da sua clínica é não aceitar crianças com idade superior a três meses. Qual o fundamento para tal ideologia?

Todos nós temos as nossas crenças. A minha é a de que a verdade científica é das poucas que pode ser demonstrada, tendo como efeito imediato, aquela que também pode ser desmascarada com maior facilidade, provando o contrário com os mesmos meios. Por isso, a Medicina baseada na evidência é muito mais importante que uma experiência pessoal, pois estamos a colocar muitos milhares de estudos validados cientificamente contra uma opinião com meia dúzia de casos, que nos influenciaram positiva ou negativamente. Mas nem todos pensam assim e, por isso, “pegar” numa criança cujos pais já estão “envenenados” com pseudoverdades e pseudorraciocínios que levaram os pais a concretizar determinados propósitos aos seus filhos, é muito difícil. Tendo também em atenção que um Pediatra tem que dar apoio aos seus clientes 24 horas por dia, importa que haja uma troca de conhecimentos fundamentais para que este relacionamento funcione. Por isso, quanto mais precocemente uma criança for orientada por mim mais benefícios trarão aos pais. Isto é demonstrado por aqueles que comigo se relacionam há mais de 30 anos e que são seguidos por mim desde o nascimento até aos 18 anos de vida.

 

 

Muito obrigada Dr. José Luís Fonseca, pela sua participação. Certamente que esclareceu muitas dúvidas ou gerou mais polémicas. Em todo o caso, a reflexão e a discussão (construtiva) permite evoluir, criar novos hábitos ou fundamentar hábitos existentes, questionar e procurar saber mais.

Por outro lado, muito obrigada sobre a opinião que demonstrou sobre os nossos produtos. Vamos ter em consideração os seus conselhos na procura de novos produtos.

 

Tags: #pediatria

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