Gripe: 25 Questões Explicativas

Postado por CatarinaVilela 14/03/2018 0 Comentários

Um procedimento muito simples que reduz a transmissão do vírus da gripe consiste na  lavagem cirúrgica das mãos.

O nome parece muito técnico e pomposo, mas a sua aplicação é simples e, quando mecanizada, qualquer um pode fazê-la. Lembra-se dos folhetos informativos afixados pela DGS, em casas de banho ou sítios públicos, com imagens elucidativas de como deveria lavar as mãos? Ora, a lavagem cirúrgica das mãos é isso mesmo! O intuito, na altura, era reduzir o contágio com gripe A (H1N1).  

O alarido causado pela gripe A já passou, todavia uma das intenções dessa campanha de sensibilização para a lavagem das mãos era criar esse hábito na população em geral. A lavagem frequente das mãos, coadjuvada com alguns produtos específicos para o efeito, de acordo com a necessidade (como por exemplo o Promanum e o Softaskin), reduz a transmissão de qualquer outro tipo de vírus da gripe ou de microorganismos transmissores das mais variadas doenças.

Descubra em seguida um quarteirão de respostas, cientificamente muito perceptíveis, a questões muito interessantes sobre a gripe.

  1. Qual é o agente responsável pela gripe?

A doença é causada por vírus da gripe que são vírus de ARN pertencentes à família Orthomyxoviridae.

  1. Em que é que consiste o genoma viral do vírus da gripe?

O genoma viral consiste em 8 segmentos de ARN monocatenário (cadeia simples de RNA), de polaridade negativa e que se apresentam associados a várias proteínas.

 

Fonte da imagem: http://www.virology.ws/2009/04/30/structure-of-influenza-virus/

 

A mais abundante de todas elas é a nucleoproteína (NP), que suporta a estrutura helicoidal das ribonucleoproteínas. Em quantidades muito menores do que a NP, encontram-se as polimerases (PB1, PB2 e PA), que constituem o complexo enzimático viral encarregue da síntese do ARN. O genoma, i.e. o ARN viral, tem polaridade negativa, pelo que não é infecioso, uma vez que não pode atuar diretamente como ARN mensageiro na síntese de proteínas. A fragmentação do genoma explica a labilidade genética e o aparecimento de recombinações por troca de genes (quando dois vírus diferentes infectam a mesma célula). É este aspeto, que determina o comportamento epidemiológico da doença.

  1. Quais são a família e o género/tipo do vírus da gripe?

Os vírus da gripe integram-se na família Orthomyxoviridae, que engloba os vírus dos tipos A, B e C, muito semelhantes entre si do ponto de vista biológico. No entanto, enquanto os vírus B e C são microorganismos que infetam predominantemente os seres humanos, os vírus A são capazes de infetar de forma natural, numerosas espécies de animais pertencentes às classes dos Mamíferos e das Aves.

  1. Quais são os principais subtipos do vírus A?

A variação dentro do tipo A é tão grande que permite classificá-lo em subtipos que, são definidos tendo por base os seus antigénios de membrana, HA e NA. Até à data, foram identificados 9 NA e 16 HA diferentes que, podem originar numerosas combinações ou subtipos.

  1. Em que se baseia a denominação dos vírus da gripe?

A forma de nomear os vírus da gripe é muito descritiva e tem em conta o reservatório/hospedeiro de procedência (excepto no caso do ser humano), o lugar, o número de laboratório e o ano correspondente ao isolamento do vírus. No caso particular da gripe provocada pelo vírus A, são tidas em consideração as caraterísticas da HA e da NA:

  • A/new Caledonia/20/99 (H1N1)     *Humana
  • A/ California/7/04 (H3N2)      * Humana
  • A/Perú/Iowa/13/85 (H5N9)    * Animal
  • B/Hong Kong/361/2002    *Humana
  • C/California/78    *Humana
  1. Porque é que o vírus da gripe tem uma elevada capacidade de mutação?

Esta é uma característica própria dos vírus que possuem um genoma de ARN. No caso dos vírus da gripe, em que se trata de uma genoma segmentado, verificam-se ainda outras possibilidades de variação.

Identificaram-se dois tipos de mecanismos fundamentais que podem dar lugar a todas as variações observadas nos vírus da gripe; estas alterações são classificadas em dois tipos:

  • Variações antigénicas menores (denominadas Antigenic Drift).
  • Variações antigénicas major (denominadas Antigenic Shift).

  1. A que se deve a variação antigénica?

A variação antigénica deve-se à acumulação gradual de mutações pontuais, nas regiões antigénicas das glicoproteínas de superfície que originam vírus mutantes que se separam paulatinamente dos que circulavam até esse momento. Os três tipos de vírus da gripe, os vírus A, B e C exibem este tipo de variação, que, resulta no aparecimento de populações geneticamente heterogéneas, conhecidas como “quase” espécies.

  1. ​​As variações antigénicas podem ocorrer em todos os tipos de vírus?

A variação antigénica major (Antigenic Shift) só acontece nos vírus do tipo A e é responsável pelo aparecimento dos diferentes subtipos de HA e Na, devido à introdução de novos vírus numa espécie animal, ou à permuta de genes entre vírus diferentes que co-infetam o mesmo hospedeiro.

  1. Em que consiste a gripe aviária?

A gripe aviária é uma infeção muito contagiosa que afeta a maioria das aves e que se manifesta frequentemente por surtos epidémicos, especialmente nas quintas de produção avícola (particulares ou industriais). É provável que as grandes epizootias tanto do as leste asiático, como as da Europa e de África, tenham tido origem no contágio das aves domésticas pelas aves migratórias. Se bem que, após os surtos iniciais, também o comércio de aves domésticas pode ter tido um papel importante na propagação da doença.

  1. Qual é a porta de entrada do vírus da gripe no nosso organismo?

O vírus atinge a mucosa respiratória por via aérea, onde pode ser neutralizado pelos anticorpos locais de infeções anteriores; também contribuem para a defesa do nosso organismo os inibidores não-específicos existentes no muco e no sistema mucociliar.

  1. Quando é que se inicia a infeção dos vírus?

A infeção inicia-se aquando da fixação do vírus aos recetores mucoproteicos das células do epitélio colunar respiratório, onde ocorre intensa replicação, durante as 49-72 horas seguintes e durante um período mais alargado nas crianças.

  1. Como é que o vírus da gripe se pode disseminar a partir de uma pessoa infectada?

O vírus da gripe é eliminado em grandes doses infectantes principalmente por gotículas (gotículas de Pflugge), que são emitidas para o ambiente, ao falar, espirrar ou tossir. Existe, ainda, uma certa resistência ao vírus no meio ambiente, favorecida pelas condições de elevada humidade e baixa temperatura, concentração de vírus nas secreções respiratórias e tamanho das gotículas/aerossóis formados.

  1. Qual é o quadro clínico mais frequente?

O  quadro clínico mais frequente é a gripe não complicada ou a síndrome gripal, doença benigna e autolimitada produzida por vírus da gripe do tipo A ou B. O vírus do tipo C, provoca quadros respiratórios ligeiros das vias aéreas superiores sem repercussão sistémica. Os sinais e sintomas mais frequentes são:

  • Mialgia (dor muscular)
  • Cefaleia (dor de cabeça)
  • Início brusco
  • Mal-estar
  • Tosse
  • Febre
  1. Quais são os sintomas básicos da gripe?

Febre, cefaleias (dores de cabeça), mal estar geral e sintomas respiratórios. O início da gripe é, quase sempre, súbito e inclusivamente abrupto.

Durante os primeiros dias, as manifestações sistémicas predominam sobre as respiratórias, que se instalam paulatinamente. Deve-se ter em conta que os sintomas podem mudar em função da idade, dos hábitos da pessoa, dos processos gripais sofridos anteriormente, da virulência das estirpes envolvidas e dos antecedentes médicos.

  1. Quais são as principais complicações da gripe?

As complicações da gripe variam com a idade dos doentes; por exemplo, as otites são mais frequentes nas crianças e a pneumonia é mais frequente nos idosos mas, existem outras complicações, cujo aparecimento depende da existência de processos crónicos das vias aéreas (asma, doença pulmonar obstrutiva crónica, fibrose quística, entre outros) e de outros processos crónicos que envolvem órgãos e sistemas distintos.

  1. Que outro tipo de complicações pode ocorrer?

Miocardite, pericardite, miosite aguda pós-gripal, afeção do sistema nervoso central (mielite e encefalite) e a síndrome de Reye (que se tem associado especialmente a vírus B).

  1. Quais são as características clínicas da gripe no adulto?

A gripe caracteriza-se por um início súbito, após um curto período de incubação (24-48h) que permite nalguns casos “identificar” a fonte de contágio entre os contatos.

O doente inicia um quadro clínico com febre alta e com arrepios que normalmente o obrigam a permanecer na cama. A febre costuma ser o sinal mais frequente entre os casos com diagnóstico confirmado laboratorialmente e, geralmente, situa-se entre os 38ºC a 39,5ºC. As cefaleias costumam ser intensas e posteriores ao início da febre.

Geralmente a tosse não é produtiva e pode existir congestão nasal nos três primeiros dias, ocorrendo, ocasionalmente, rouquidão ou dor retroesternal. A auscultação pulmonar evidencia, nalguns casos, roncos e sibilos que revelam compromisso brônquico.

  1. Quais são as características clínicas da gripe na criança?

As crianças e os adolescentes são os principais afetados nas epidemias de gripe e a infeção gripal provoca febre que tem tendência a ser muito elevada. Os recém-nascidos e os lactentes apresentam frequentemente sintomas pouco específicos como recusa alimentar, e ainda, quadros respiratórios semelhantes ao croup e à bronquiolite. Em quase metade das crianças menores de quatro anos, observa-se um importante grau de sonolência e letargia. As dores abdominais, vómitos e diarreia, podem observar-se com menor frequência em crianças mais velhas.

O síndrome gripal pode ser especialmente intenso e prostante nas crianças pequenas, com os valores de CPK elevado e a SGOT discretamente elevadas, refletindo manifestações enzimáticas de compromisso muscular.

A frequência de complicações e a sua gravidade nas crianças, está relacionada com a menor capacidade de resposta à infeção e à ausência de episódios gripais anteriores.

  1. Qual é o mecanismo de transmissão da gripe?

A gripe transmite-se de pessoa-a-pessoa através das secreções respiratórias. O seu período de transmissibilidade estende-se desde as 24-48horas antes do início dos sintomas, até 5-6 dias depois, podendo ser mais alargado nas crianças.

A transmissão ocorre de diversas formas mas, sobretudo, através de gotículas infetadas e do contato, direto ou indireto, com secreções respiratórias recentes infetadas. A transmissão através de inalação de aerossóis e gotículas mais finas pode também ocorrer. Isto, explicaria a ocorrência de surtos com elevadas taxas de ataque, em populações em que não se verificou um contato pessoal entre os afetados. Não há infeções latentes. O curto período de incubação (de 1 a 5 dias) e a natureza explosiva das epidemias e das pandemias, assim como o início simultâneo em diversas comunidades, sugerem que uma só pessoa pode transmitir a infeção a um grande número de indivíduos susceptíveis. A importância da transmissão através de fómites (objecto ou material que pode alojar um agente infeccioso e permitir a sua transmissão).Não está bem avaliada, ainda que se tenham descrito surtos nos quais, a transmissão acontece através das mãos ou fómites.

  1. Em que é que consiste o controlo e a vigilância da gripe atualmente?

Num período interpandémico como o atual, o controlo da gripe está exclusivamente baseado na administração da vacina a diferentes grupos da população, com um maior risco de sofrer complicações da doença. No entanto, devido à constante mutação antigénica dos vírus da gripe, a vacina da gripe é modificada anualmente, adaptando-a deste modo às estirpes que se estima virem a circular nesse ano. E é aqui, precisamente, que a vigilância internacional da gripe detêm um papel importante, tendo como objectivo fundamental caracterizar adequadamente os vírus circulantes e a sua difusão entre a população.

Para assegurar uma rápida identificação das estirpes de vírus circulantes, a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou, uma rede internacional de laboratórios que atualmente abrange 80 países, através da colaboração de Centros Nacionais de Gripe e de 4 Centros de Referência. Esta rede é a base para as recomendações que a OMS faz todos os anos sobre a composição antigénica da vacina contra a gripe, e é sem dúvida uma grande conquista. No entanto, o conhecimento de como se comporta a doença, só é possível com a vigilância integrada da mesma, reunindo os dados epidemiológicos, clínicos e laboratoriais de uma mesma população.

  1. A gripe é uma doença de declaração obrigatória no nosso país?

Não. A vigilância da gripe em Portugal começou por ser apenas laboratorial, através do Centro Nacional da Gripe (CNG) e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), sendo atualmente uma vigilância integrada clínica e laboratorial baseada em duas redes sentinela de vigilância: uma de médicos e outra institucional.

  1. Em que consistem as redes sentinela da vigilância da gripe?

A rede de médicos sentinela constituída por médicos de Medicina Familiar de todo o país, que participam voluntariamente, sendo responsáveis pela notificação de casos clinicamente compatíveis com gripe (diagnóstico clínico, de acordo com critérios predefinidos) dos doentes da sua lista bem como pelo envio de produtos biológicos para analisar (zaragatoas da nasofaringe realizadas a uma amostra de doentes).

A rede de instituições sentinela é composta por serviços de urgência, que participam voluntariamente na rede, e que são responsáveis pelo envio de produtos biológicos ao CNG/INSA, colaborando assim na identificação dos vírus circulantes e na identificação dos seu padrão de difusão.

Portugal integra, ainda, a  Rede Europeia de Vigilância da Gripe (EISS).

  1. Quais são as principais indicações da vacinação contra a gripe?

Anualmente a Direção-Geral da Saúde (DGS) assessorada por um grupo de especialistas emite sob a forma de Circular Informativa (estas Circulares ficam disponíveis no site da Direção-Geral da Saúde: www.dgs.pt), publicada em setembro, as indicações de vacinação para a época sazonal desse ano. A vacinação inicia-se em 1 de outubro. O objetivo principal é aumentar a cobertura vacinal em (1) pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, (2) doentes crónicos e imunodeprimidos e (3) profissionais de saúde.

De um modo geral nesses folhetos constam as seguintes recomendações:

  • A cota de vacinas destinadas a cada país é limitada.
  • A prescrição da vacina deve ser criteriosa, prioritariamente às pessoas que mais dela beneficiam e de acordo com os critérios definidos na Circular.
  • A vacina contra a gripe sazonal não protege contra os vírus da “gripe aviária”.
  • Recomenda-se a vacinação a pessoas consideradas com alto risco de desenvolver complicações pós-infeção gripal com (1) idade superior ou igual a 65 anos, particularmente, se residentes em lares ou outras instituições, (2) doentes crónicos, desde que com idades superiores a 6 meses (incluindo grávidas em qualquer fase da gravidez e mulheres a amamentar), que apresentem: (a) doenças crónicas pulmonares, incluindo asma, ou cardíacas (a hipertensão, por si, não é considerada uma condição de alto risco); (b) doenças crónicas que necessitam de segmentos médico regular, como doenças renais, hepáticas, hematológicas (hemoglobinopatias), metabólicas (incluíndo Diabetes mellitus) ou neuromusculares (que comprometam a função respiratória, a eliminação de secreções ou risco aumentado de aspiração de secreções); (c) Outras situações que provoquem depressão do sistema imunitário, por medicação (ex.: corticoterapia prolongada ou quimioterapia) ou por doença (ex.: infeção pelo vírus da imunodeficiência humana ou cancro), (3) residentes ou internados por períodos prolongados em instituições prestadoras de cuidados de saúde (ex.: deficientes, utentes de centros de reabilitação), desde que com idade superior a 6 meses, (4) crianças adolescentes (6 meses a 18 anos) em terapêutica prolongada com salicilatos e, portanto, em risco de desenvolver o síndrome de Reye após a infeção com vírus da gripe, (5) grávidas que, em outubro, estejam no 2º ou 3º trimestre da gravidez não só para sua proteção de uma eventual evolução grave da doença durante a gravidez mas, também, para proteger os seus bebés durante os primeiros meses de vida.
  • Recomenda-se a vacinação a pessoas com probabilidade acrescida de transmitir  o vírus aos grupos considerados no item anterior: (1) pessoal dos serviços de saúde e de outros serviços prestadores de cuidados (domiciliários ou instituições) e com contato direto com as pessoas incluídas no item anterior, (2) coabitantes de crianças que tenham menos de 6 meses de idade e risco elevado de desenvolver complicações.
  • Profissionais que possam vir a estar envolvidos em operações de abate sanitário de aves potencialmente infetadas com vírus da gripe.

Esta recomendação, no atual contexto internacional da epizootias de gripe aviária, visa reduzir o risco teórico de recombinação genética do vírus, por co-infeção, entre o vírus da gripe aviária e o da gripe humana.

Os encargos resultantes da vacinação dos profissionais de saúde, ou de outros serviços, cujo risco advenha da sua actividade profissional, são da responsabilidade da respetiva entidade empregadora (pública ou privada), de acordo com a legislação em vigor (Decreto-Lei n.º 84/97, 16 de abril e Decreto-Lei n.º 109/2000, de 30 de junho), através dos Serviços de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho.

  1. Quais são as principais contra-indicações da vacina da gripe?
  • Crianças menores de 6 anos
  • Alergia à proteína do ovo.
  • Alergia ao tiomersal e a outros componentes da vacina
  • Doenças febris
  • Síndrome de Guilain-Barré
  1. Quais são as principais contra-indicações da vacina da gripe?

Além dos enfermeiros aplicarem a vacina, tendo em atenção as boas práticas Costa e al, concluem no seu estudo, que o pessoal de enfermagem exerce uma influência positiva no cumprimento da vacinação contra a gripe e é, um elemento útil nas estratégias de recuperação de pacientes com atitudes negativas face à vacinação.

Puig-Barberá et al, demonstraram que o convite / convocatória feito através de carta ou por telefone, a sensibilização do pessoal de enfermagem para vacinar e a discussão de avaliações externas, associavam-se de forma independente, a maiores taxas de cobertura vacinal.

Catarina Vilela (Enfermeira)

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